A saída de Recife se deu às 06:30hs depois de um belo café da manhã e despedidas de Mário, sua esposa Deida, da cadela Natasha e ainda, de quebra, da Praia de Boa Viagem, do “Corgão sem Beira” (apelido que alguns goianos deram ao Mar).
Nosso amigo Mario tentou disfarçar a vontade e a tristeza de não poder estar nos acompanhando nessa viagem, pois ele estava programando fazê-la com o Hans desde o início do ano. Porém, em março aconteceu uma fatalidade que o afastou dessa possibilidade. Quando ele estava buscando sua moto “Tiger” na oficina, onde ela estava sendo preparada pra tal aventura, ele foi atropelado por uma louca mulher no trânsito e frustrou seus planos. Mulheres no volante, Bah!!!
Era a hora de todos saírem de casa pra seus trabalhos e afazeres. O trânsito estava naquela hora louca onde todos querem, com muita pressa e agonia, chegar a seus destinos o mais rápido possível, mesmo que seja necessário passar um por cima do outro, sem cortesia, educação e sem respeito. Vejo então, com esse meu olhar romântico e um tanto filosófico, um bando de gente afoita, tristes e raivosos, cansados e obrigados pela mesmice diária a fazerem aquele mesmo trajeto todos os dias, num estresse contagiante. Sem se perceberem, por estarem inseridos naquele contexto rotineiro, o volante do carro se torna uma espécie de arma. O que sai na frente nessa corrida urbana, faz questão de se fazer de mais esperto, mostrando assim, um ao outro, quem é que vive pior. Ao final dessa vida agitada pode-se esperar o troféu: um analista, um infarto, ou o famoso “caixão e vela preta”.
Depois de passarmos pelo tumulto diário do trânsito das cidades, Hans ao meu lado com sua “Super Maquina”, com o som ligado no volume máximo tocando o bolero romântico “Devaneios”, de Julio Iglesias. O velho e bom gringo com o olhar tranquilo e sereno, como se fosse uma ilha de desprendimento e liberdade em meio aqueles robóticos seres que seguiam para seus destinos automaticamente. Aproveitava, neste momento, para combater os sons poluentes, estridentes e irritantes das buzinas com uma bela canção de amor. Lembro-me agora de um filósofo tocantinense chamado Juraildes da Cruz que diz: “tem gente que gosta dos zói e outros da remela”.
Logo adiante, começaram a aparecer grandes canaviais, plantações intermináveis de se perder de vista numa paisagem diferente, que é tradicional dessa região do Nordeste. Canaviais que recebiam lufadas de vento me causando uma emoção semelhante ao que tinha acabado de sentir ao olhar pro mar a me despedir, mas dessa vez um mar verde com ondas de folhagens pra lá e pra cá numa espécie de balé ritmado florido do verdadeiro “mar verde do sertão”. (nessa hora o beato tem razão ao profetizar que o “sertão vira mar”).
Paisagens que vêm desde o tempo do Brasil Colônia, onde os ditos “senhores de engenho” comandavam a economia, a política e o povo em geral. Eram os “Coronéis” tanto criticados e combatidos pelo Cangaço (pra uns assassinos sanguinários, pra outros uma espécie de Robin Hoods do sertão) e também protestados em prosas e versos que fizeram do Pernambuco, e do Nordeste em geral, um celeiro de artistas tão expressivos e maravilhosos como Ariano Suassuna, Geraldo Vandré da Bahia, Joao do Vale do Maranhão, Patativa do Assaré do Ceará e tantos outros Elomares, Xangais, Jacsons do Pandeiro, humoristas, palhaços, escritores, intelectuais e o próprio Rei do Baião Luiz Gonzaga que tornaram nossa vida menos triste.
Para minha alegria, passamos ainda por cidadezinhas com nomes de Goiana e Goianinha. Lembrei-me de uma das terras que vivi por anos, minha saudosa Goiânia dos anos 80. Encontrei ainda um caminhoneiro de lá e conversamos das diferenças da cidade daquela época para os dias de hoje. Era a Goiânia do sossego, do trânsito leve, da efervescência cultural dos bares com som ao vivo, onde comecei na arte de cantar em público. Foi nessa fase que me ingressei na boemia, fazendo serenatas para as namoradas, mesmo para as que moravam no vigésimo andar do Edifício Rio Negro.
Por essas enormes diferenças é que optei por estar na novinha cidade de Palmas do velho norte de Goiás, no jovem e alforriado Estado do Rio Tocantins. Mesmo que tentem ou queiram me exilar de novo dessa terra que me adotou como filho, não conseguirão, pois estou partindo, mas podem crer, EU VOLTO.
Passamos por João Pessoa (Paraíba), sem entrar na cidade, apenas margeando pela rodovia, mas não deixei de sentir uma saudade dos bons tempos de criança e desejar boas energias pra uns primos que não vejo há muitos anos e que moram por ali. A benção, Tio Brás Cordeiro e sua prole, familiares queridos que, assim como minha mãezinha, são filhos do velho e bravo guerreiro Diolino Cordeiro, meu avô.
Ver a placa de entrada para Campina Grande ainda na Paraíba também me emociona pois ainda quero voltar na terra de Zé Ramalho, Elba e ver o berço e a “Praça do Forró”.
Seguindo sempre em frente, nunca para trás e jamais por mesmos caminhos, vamos rodando e rodando pelo agreste do sertão nordestino.
Vejo outra placa pra entrar na Ilha de Itamaracá, terra de “Dona Lia da Ciranda” que conheci há alguns anos atrás e me encantei. Itamaracá também é a terra do meu lado “brega” que assumo, pois posso até parecer e ter outros, mas esse eu assumo e ADOROOOOO!!! FICA AQUI MINHA HOMENGAGEM A OUTRO REI EM MINHA ALDEIA, QUE JÁ TEM UMA MONARQUIA COM MAJESTOSOS DA ESTIRPE DE ROBERTO CARLOS, GONZAGAO, PELÉ, TIÃO CARREIRO E O GRANDE REGINALDO ROSSI, O “REI ROSSI”.
“Você com laquê no cabelo e um vestido rodado
e aquelas anáguas com tantos babados
que você se sentava só pra me mostrar”
Ficamos sabendo que estava acontecendo um Encontro de Motociclistas (Viu, Dr. Túlio? “Motociclistas”!!!!) na Ilha de Itamaracá. A possibilidade de entrarmos era tentadora, pois com toda certeza, Hans, com sua história, exemplo e sua moto, seriam a sensação do lugar. Os aplausos voltar-se-iam para ele.
Porém, há outra coisa que estou aprendendo nessa minha escola introdutiva de “viajero de las carreteras”: temos que manter nosso foco. Nosso objetivo é fazer milhas, quilômetros, passar como um vento passa pelos lugares, sem interferir ou modificar muita coisa, apenas deixando nossa marca no coração e, talvez, na vida das pessoas que vamos tendo contato. Vamos levando muitas fotos e, no meu caso, fazendo meu documentário em vídeo e relatos. “O Pássaro não canta a espera de aplausos, canta porque tem seu canto”...
Seguimos a viagem, eu ainda com algumas dores a me incomodar, principalmente no pescoço, mas, como já disse anteriormente, elas estão diminuindo a cada milha conquistada. “Eita, Bico de Papagaio, que eu saio dele, mas ele não sai de mim!” Quem é do Tocantins e Goiás vai entender o trocadilho!
Cruzamos Pernambuco, Paraíba e chegamos a Natal no Rio Grande do Norte.
Vocês sabem o nome do Rio Grande do Norte? É o Rio Potengi. E o Rio Grande do Sul é Rio Guaíba. Didi também é cultura!!!
Paramos pra almoçar em Natal, onde novamente as motos se tornam um “show à parte”e aproximam-se vários nativos e turistas querendo tirar fotos. E lá vêm as mesmas perguntas de sempre: quanto corre?, quanto custa?, de onde vem?, pra onde vão?...
Acho que começo a entender porque o Hans se finge de surdo (um pouco mais) e faz não entender o idioma do local.
Saímos da Praia de Ponta Negra com o cenário em nossas costas do velho Morro do Careca e o mar verde e exuberante de Natal. Passamos por várias cidadezinhas típicas nordestinas com suas casinhas brancas, emendadas, no meio da caatinga com mandacarus, açudes lamacentos, pontes sobre rios de areia e sem água, velhos caboclos nordestinos sentados às portas, olhando as motos e a vida passar com seus chapéus de palha pendidos de lado na cabeça, como nos velhos filmes de John Wayne. No cenário também é muito presente o bigodinho típico dos nordestinos, o qual alguém no passado, influenciado por Clark Gabel ainda na década de 30 no filme “E o Vento Levou”, começou usar e desde então virou febre e mania nessa região.
Entre Natal e a cidade de Mossoró, onde pernoitamos, tudo que havia eram cidadezinhas com nomes como Cachoeira do Sapo, Caiçara do Rio do Vento, Lajes, Angicos, oásis semiabandonados em um deserto de árvores pequenas e tortuosas, quase cinzas, num terreno arenoso e de pedregulhos esparsos. Os vilarejos não tinha praticamente nada além de um mercadinho, uma igreja e um curralzinho de pau roliço sem nada dentro. Nem um Banco Bradesco eu vi! Havia quilômetros de seca e caatinga aberta entre essas vilas esquecidas. Era o tipo de lugar sobre o qual a maioria das pessoas talvez passe de avião ou carro um dia, mas onde jamais irá colocar os pés.
Em Mossoró, ficamos num belo hotel de nome Vila Oeste onde pude fazer minhas ginásticas interrompidas em uma pequena academia, pegar uma sauna e comer um belo jantar regado a um bom vinho e ao lado do meu “partner”.
A moto marcava 2.665km percorridos e me fazendo lembrar que a viagem estava apenas começando e que tem muita aventura pela frente.
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