Vinha-me à cabeça a palavra solidão e eterno. Lembrei-me da viagem de 2002 quando atravessamos o deserto do Atacama, no Chile e Peru, o mais árido do mundo. Nos primeiros dias tudo era novo e interessante, depois se torna monótono, triste e feio.
É impressionante como a vida esta relacionada com a água, tanto nessas paragens como no sertão do nordeste brasileiro. Onde tem um riozinho, um filete de água, mesmo que salobra e suja, nasce a possibilidade de chegar alguém e tentar sobreviver em regiões tão inóspitas, estéreis e frígidas. Imagino que essa região e o Nordeste em geral deve ter sido sempre assim e que continuará do mesmo jeito para sempre.
Uma pessoa poderia facilmente sumir em um lugar desses levando a vida sem que ninguém notasse. “Água é Vida!”
Sempre sonhei em terminar meus dias tocando em uma pousada a beira-mar, fazendo uma tatuagem, recebendo gringos e nativos, cantando com minha viola, aprendendo a surfar. Talvez até fumar uns cigarrinhos interessantes (minha mamãe vai me matar com esse comentário). Enfim, viver em um lugar sossegado e distante onde ninguém me acharia, mas não exatamente um sossego sepulcral como esses que vi nos desertos nordestinos.
Faço agora um parágrafo voltado para mais uma lição que a Mestra Estrada vai me aplicando e do conhecimento cada vez mais profundo do estilo e características de vida, o “modus vivendi” dos MOTOCICLISTAS. Tenho notado que viajar de moto pelo mundo além de ser uma deliciosa aventura, dar muito prazer e ser um grande desafio, também é uma lição de convívio na difícil arte de viver a dois, (ou a três, a quatro, cinco, dez), seja como casais, no âmbito familiar ou entre amigos. Os Motociclistas mais antigos ou experientes que estão tendo paciência e me acompanhando nesses relatos devem confirmar.
Segundo o dicionário de sociologia: MODUS VIVENDI. É uma espécie de arranjo temporário que possibilita a convivência entre elementos e grupos antagônicos e a restauração do equilíbrio afetado pelo conflito. O antagonismo é temporariamente regulado e desaparece como ação manifesta, embora possa permanecer latente.
Na minha convivência com o Hans, por exemplo, um grande parceiro de viagem, vou notando algumas peculiaridades de tratamento e relação que devem ser a base, como em todos os relacionamentos: a tolerância, a cortesia, o trabalho em equipe e, principalmente, o respeito a individualidade de cada um.
No meu caso, me apresento pela segunda vez como um convidado do Hans a fazer em sua companhia a “viagem dele”. Ele decidiu a rota e a planejou por meses. É ele também quem paga as contas. Sabe, por sua experiência, o que deve e o que não se deve fazer, os perigos, as expectativas e os focos. Tais focos são sempre muito pessoais e de difícil conciliação com outros indivíduos que não sejam parceiros já conhecidos, onde se sabe a maneira de agir e os pensamentos, gostos e estilos de vida são semelhantes.
No meu convívio com o Hans existem algumas diferenças marcantes como: grande diferença de idade (ele é 40 anos mais vivido), de cultura (ele é sueco naturalizado americano e eu brasileiro, goiano e adotado pelo Tocantins) e de prioridades que a vida nos ensinou a respeitar.
Então me vejo nesse aprendizado, exercitando diariamente minha capacidade de agir com humildade quando necessário, resignação, respeito aos mais velhos e aceitação do meu lugar como um “caroneiro” e ainda sabendo aceitar e agradecer à vida e à boa sorte por receber esse presente desse Homem tão gentil, cortês e cavalheiro, mas que também tem seus momentos de preocupação, concentração e até mesmo raiva, indignação, entre outros.
Muitas vezes, tanto na viagem de 2002 quanto nessa, já senti vontade, ao me deparar com alguma mudança de humor de meu parceiro que me desagrada, a chegar a pensar em desistir de prosseguir a viagem ou me deixar ouvir alguns auto conselhos mal criados como: “Ah! Gringo vai se ferrar!... vai procurar sua turma!... eu não preciso passar por isso!... sou isso!... sou aquilo!...”, tudo isso, claro, motivado por orgulho, vaidade e outros sentimentos filhos de um egocentrismo desnecessário e destruidor.
Nesse percurso, graças a “Santa Protetora dos Vagabundos de las Carreteras”, já consigo me superar nesses sentimentos egoístas e descobrir, logo em seguida, que aquele sentimento de ira ou talvez indiferença, embora aparentemente a mim dirigido, se trata do jeito e da personalidade de cada um frente a uma luta pessoal, com seus próprios anjos e demônios, e que nada tem a ver comigo. É o movimento de descarregar no parceiro mais próximo, como acontece em todo convívio.
Pra quem consegue uma certa evolução espiritual suficiente e aprendida com a vida, seja no amor ou na dor, descobre que, logo em seguida, vem o cuidado constante um com o outro, a preocupação com a saúde e até mesmo com sentimentos emocionais.
Foi o que aconteceu em Mossoró onde eu estava meio calado no café da manha e ele me pergunta com seu sotaque misturado “O que foi Diomar? Está você triste?”. É isso aí, amigo velho, “eu sou a sua turma”.
Deve ser por isso que, quando alguém descobre esse mundo incrível de viajar pelo mundo sobre duas rodas e ao passar por essas experiências, vai se tornando “Cavaleiro Solitário” e dispensa companhias para se sentir verdadeiramente livre, de tudo e de todos, já que é tão complicado e difícil encontrar parceiros ideais.
Querido FC Diomar:
ResponderExcluirFoi um dos textos mais lindos que li até hoje sobre convivência entre pessoas.
Parabéns pela tua sensibilidade e delicadeza na abordagem de um tema tão delicado e ao mesmo tempo tão presente no relacionamento humano.
O fizeste com a precisão, firmeza e delicadeza que somente as pessoas dotadas com grandes sentimentos conseguem transmitir, com um misto de resignação, compreensão e acima de tudo, de respeito ao ser humano que participa dos teus sonhos.
Quando dizes: é isso aí, amigo velho, "eu sou a tua turma", mostra que o teu espírito navega num patamar mais elevado do que o da maioria de nós, pobres mortais.
Nos orgulhas como motociclista e mais do que isto, como ser humano, quando transpiras tanta personalidade respirando tanta humildade.
Obrigado por tanto carinho e generosidade para conosco!
Abraços muito afetuosos!
Dolor
PS: Estamos postando o teu diário no Forum dos Fazedores de Chuva. Para todos nós, seria uma alegria se pudesses faze-lo diretamente, bastando para isto, um rápido cadastro.