30 de julho de 2011


De Mossoró – RN saímos bem cedinho, como sempre, às 06h40min, sob um céu carregado de nuvens negras de eminente tempestade de inverno bloqueando o nascente do sol e afundando-nos em uma escuridão prematura. No horizonte, abaixo de uma fileira de nuvens, uma chuva caia nos campos por detrás de uma faixa de luz dourada. A rodovia BR-304 continuava movimentada de caminhões e carros com placas nordestinas.

Traçamos uma rota até Fortaleza, passamos pela avenida da orla e aproveitei pra registrar tudo com minha câmera. Paramos na praia de Mucuripe, atrás do mercado de peixe, deixando as motos sob cuidado de um garoto conversador e curioso.

Descemos na areia para que eu realizasse um desejo antigo de gravar para meu documentário uma cena onde canto ao meu violão, a canção “As Velas do Mucuripe”, autoria de Fagner e Belchior. Há mais de 20 anos eu canto essa canção. Comecei pelos bares de Goiânia e depois continuei pela vida afora, mesmo não conhecendo a praia que serviu de inspiração para esses grandes poetas e músicos nordestinos.

Coloquei o Hans como cinegrafista, dirigi como deveriam ser suas tomadas de cena, onde ele deveria primeiro gravar num “close”, meu rosto cantando, para utilizar essa parte como âncora de edição e aproveitar o áudio. Depois repeti a canção mais três vezes para ele colher detalhes como o mar ao fundo, a praia, as jangadas com suas velas festivas e coloridas, a praia cheia e a cidade de Fortaleza com seus majestosos prédios de residências e hotéis luxuosos.

Pessoalmente, foi uma experiência muito interessante, pois me causou muitas emoções bacanas. É como se eu estivesse realizando esse sonho de cantoria a beira mar, junto às velas de Mucurupe. “Aquela estrela é dela, vida, vento, vela leva-me daqui...”.

Paramos para almoçar em uma ótima churrascaria, muito elegante e cara, de nome “Sal e Brasa”. Nos esbaldamos comendo, comida japonesa, paella espanhola, feijoada brasileira e muita, muita carne macia e sortida. Após o almoço quase não conseguíamos levantar das cadeiras de tão pesados. Melhor que fosse em ambiente tão “chique”.

As pessoas estavam muito bem vestidas e o cenário era uma mistura de turistas com fartas condições financeiras e a provável “High Society Cearense”. Deu um contraste enorme a entrada de dois cabeludos de roupas amarrotadas, de couro, lenços na cabeça e no pescoço. Eu com meu cavanhaque de “Don Juam Tupiniquim” e o Hans com sua cara de “Clint Eastwood” saído de um tiroteio com todos os bandidos dos bang-bangs americanos.

Éramos salvos de sermos execrados por narizes torcidos pelo fascínio causado e a atração que as motos lá fora, na entrada, exerciam em todos, justificando assim a presença desses aventureiros estranhos.

Ainda na churrascaria um garçom nos informou que a BR-222, a qual tínhamos previsionado passar, estava em péssimo estado de conservação. Ele nos sugeriu um desvio pela BR-020, que aumentaria uns 80km em nossa rota mas que valeria. Então, com um roteiro pregado na bolha (para-brisa) de minha moto, saímos da cidade. Claro que depois de várias erradas, como sempre acontece. E a moto do Gringo lá... com o som alto e animado, com “Pinga Ni Mim” chamando atenção na voz de Sérgio Reis.

Nos primeiros 20 ou 30 quilômetros pegamos uma parte muito ruim. Às vezes, a estrada estava até sem asfalto, com buracos enormes que amassaram o escape da Gold Wing e fez o Gringo ficar possesso e não falar direito comigo nas próximas paradas. Ficou com seu humor abalado e silencioso durante um bom tempo, até que paramos num posto de gasolina na cidade de Canindé e uns bonachões nos presentearam com camisetas e medalhas de São Francisco de Canindé.

No dia anterior, havia sido o festejo da cidade que tem o turismo religioso como principal atrativo. As medalhas nos foram entregues por animados Secretários de Cultura e de Turismo do município. Junto com umas cervejas e muita animação, fotografaram momento tão solene de entrega de tais medalhas a esses viajantes do mundo. Eu morrendo de sede e louco por uma daquelas cervejas e o Hans, de início ainda meio emburrado, mas depois contagiado pela simpatia brasileira com estranhos. Ele foi até as motos pegou e entregou aos novos conhecidos, um cartão meu (com minha foto, contatos e o site de meu programa de TV) e um cartão dele (com fotos, na frente, de alguns locais pelo mundo que ele visitou).

Então, depois de muitos contratempos, chegamos a Sobral por volta das 19h30min e, novamente envolvidos pelo mau humor que voltou a atacar meu parceiro, nos hospedamos num hotel chamado Beira Rio.

Depois de alguns contatos por telefone e internet com motociclistas conhecidos entendemos que teríamos que esperar passar alguns dias quietos. Era necessário procurar uma concessionária de motos aqui da cidade, ligar pra outras, verificar onde encontrar o pneu e pedir que nos enviem. Caso não tenha na região, teremos que pedir em uma empresa de São Paulo que nos enviará por SEDEX. Enfim, concluímos que antes de 3 ou 4 dias não sairíamos de Sobral, a terra do Trapalhão e meu chará “Didi Moco”, o velho humorista Renato Aragão.

O Hans finalmente acordou. São 17h50min. O Gringo dormiu 9 horas seguidas e agora vai dar trabalho pra dormir essa noite. Resfenol nele! Risos.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário