Tocar um instrumento musical ou praticar esportes são maneiras que muito auxiliam a fazer amizades pela vida. No meu caso devo quase tudo que conquistei e recebi de bom ao velho amigo violão e seus acordes. Ser flamenguista também é um luxo que muito me aproxima das pessoas, pois até os adversários respeitam essa paixão.
Como não poderia falhar, logo que comecei a dedilhar um reggae apareceu minha primeira platéia, um nativo muito maluco da Ilha de Marajó, com a camisa aberta, um chapeuzinho de pano atolado na cabeça, a calça naquele estilo caída, tampando só metade do traseiro magro e um físico de invejar a “Olívia Palito”. Uma mistura de “Lacraia” com “Zé Bonitinho”. Então foi se aproximando devagar, meio dançando ao som de minha melodia e atraído pela magia do ritmo de Bob Marley, mestre dos “Malucos Beleza”.
Respeitosamente, no seu estilo, perguntou se podia ficar ali perto curtindo meu som. Eu que já cantei pra platéias variadas, de todas as espécies e gostos, não só permiti como convidei a sentar ali perto. Fiquei pensando se naquela noite eu teria apenas essa figura, mas seja como for, eu iria de alguma forma alegrar com minha arte “Seja bem vindo, My Brother!!!”...
Passando de uma canção a outra e entre goles em uma garrafa de whisky que eu trouxe de Teresina, fomos nos divertindo. Eu ali sentado fazendo meu pequeno show e o Maluco Beleza dançando em pé ao meu lado, completamente alucinado. Logo em seguida descobri que não era só a emoção da música que fazia a cabeça da minha platéia de um maluco só, mas um daqueles cigarrinhos que ele começou a enrolar.
Avistei o Hans subindo até onde estávamos trazendo o Polonês, “amigo do Papa”, e ali ficaram pra ouvir minha música. Fui ficando preocupado, pois ali vinham dois gringos que podiam não simpatizar com “minha platéia”. O Hans eu conheço bem e sei que ele não teria preconceitos, mas o Polaco poderia não gostar. Eu poderia, assim, atrapalhar a amizade deles que estava iniciando. Mas, como eu estava no meio de uma canção, não tive a mínima vontade de parar e pedir ao "Marijuanero" que parasse sua tarefa e apenas continuei na minha, cantando e vendo no que ia dar aquele encontro inusitado de malucos, cada um na sua “maluquez”.
Os dois nos avistaram e se aproximaram.
Hans foi logo se divertindo ao me ver ali acompanhado daquele dançarino da Lua e o Polaco, de cara séria, meio que observando tudo. Ao mesmo tempo que eu cantava, eu olhava o maluco terminar seu cigarrinho e preparar outro pra acender. Pensei: “Agora o pau quebra!
Ele acendeu seu lenitivo e, pra completar a irreverência, antes de soltar a baforada da primeira tragada, ele se levantou, aproximou-se dos gringos e foi cumprimentando-os, já convidando a sentar conosco. Sem cerimônia, foi anunciando minhas qualidades de cantador e instrumentista como se fosse meu empresário e divulgador, sem se preocupar com toda a fumaça que ia escapulindo na cara dos europeus.
Hans, discreto e cavalheiro como sempre, nada comentou, mas o polonês imediatamente disse com naturalidade, em “portunhol” e naquele sotaque carregadíssimo, do jeito meio infantil que os estrangeiros tem: “Hummmm!!!... Cheiro do marijuana!? Yo conosco muy bien!”
Nessa hora o discípulo de Raul Seixas se sentiu em casa e foi oferecendo logo o cigarrinho, mas o gringo agradeceu dizendo que estava velho e que não mais gostava. Contou que já havia experimentado tanto essa quanto outras várias modalidades de parque de diversões químico pelos países onde ia passando.
Continuei cantando, segurando o riso que insistia em atrapalhar minha cantoria, e fiquei ali admirando aquela cena, me divertindo com tudo, imaginando como os outros passageiros que também estavam ali no convés iam vendo ali dois gringos idosos, muito brancos, de olhos azuis conversando em inglês, se esforçando pra serem sujeitos normais, e do outro lado dançava o desinibido viajante das estrelas de braços abertos apontados para a Lua, “aprendendo a ser louco, um maluco total”, e eu “na loucura real, controlando a minha maluquez, misturada com minha lucidez”, e soltando a voz “vou ficar, ahhhh!!! Ficar com certeza maluco beleza”...
Viva a liberdade de estar em terras desconhecidas e poder respeitar a todos como são e ser o que quiser sem preocupar com julgamentos, críticas, conceitos pré-concebidos, falsos pudores ou qualquer melindre de ninguém. “mais louco é quem me diz que não é feliz, não é feliz”...
Terminei a noite cantando no sereno até perder a voz, pois chegaram dois paraenses, Emanuel e Everton. O primeiro também era violeiro e gostava de um repertório bem voltado para as músicas regionais do Pará e ficamos ali, descendo o Amazonas e espantando os males da vida regados ao scotch e muita cerveja. O maluco, chamado Cláudio, ainda quis cobrar ingressos dos dois que chegaram. Sempre precisei de um empresário assim! Risos.
Na segunda noite, tivemos outra roda de viola, porém bem maior. Vieram vários estrangeiros nos prestigiar e outros passageiros.
O auge da minha diversão foi a gargalhada que não consegui segurar quando o maluco, ao tentar pegar na mão do Hans para trazê-lo pra dançar com ele e, diante da recusa, virou-se pra mim e perguntou o nome do meu amigo gringo. Quando respondi que era Hans, ele finalizou: “Aí, véio!!!... O sobrenome dele deve ser Zinza, Hans Zinza!”
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