“Não estou fugindo de nada, apenas correndo ao encontro de mim mesmo. E que a estrada e a vida cuidem bem de nós”...
Parintins, terra dos Bois “Garantido” e “Caprichoso”, do mais belo festival folclórico que já tive a oportunidade de presenciar e participar como jurado no ano de 2009 e onde descobri que amar seria possível. Salve, salve, todas Cunhãs Porangas (inclusive a minha), Sinhazinhas da Roça, Pajés e a Nação Azul, hoje minha preferida. O único lugar do planeta onde a Coca Cola e o Banco Bradesco tem as logomarcas também na cor azul.
Estamos, nesse momento, ancorados em Parintins esperando o embarque e desembarque de passageiros e cargas, depois de quatro dias a bordo do Catamarã Rondônia, cuja viagem esta sendo incrivelmente interessante, com aprendizados culturais, divertida e animada, com belas paisagens dos rios Pará, Tocantins, Tapajós, Amazonas, Negro e Solimões. Vê-se também muitas casinhas sobre palafitas por todas as margens, de ribeirinhos solitários e sofridos mas que insistem em viver aqui sem energia elétrica, sem televisão, sem saneamento básico, sem Mc Donald, sem nada!... Mas tendo de tudo que precisam pra sua pouca exigência de felicidade.
Fiquei um pouco decepcionado por não ter visto e nem filmado o encontro do meu Rio Tocantins com as águas do rio Pará formando, junto com as águas do Oceano Atlântico, a bela Baía de Marajó. Foi logo na saída de Belém e estava noite. Porém, a Foz do Tapajós foi linda de se ver! Suas águas limpas e verdes tentam se misturar com as de cor marrom e barrenta do Amazonas.
Sempre fui um legítimo “puxa-saco” do meu Rio Tocantins, pois minha vida e minha história sempre tiveram fortes laços afetivos com suas águas e seu domínio que, sobre mim, exerce um fascínio aqui expressado em forma de reverência, respeito e admiração. Esse rio que, desde que meu pai foi eleito a Prefeito no Município de Peixe, tive as glórias de conhecer, em suas margens e barrancas, o acesso à magia dos primeiros acordes do violão, das primeiras serenatas, primeiras namoradas... Saudosas lembranças de liberdade e aventuras adolescentes! Foi onde descobri que um dia eu seria também um “Cantadô”... “Um Passador de Poesias”...
“Inté mais Tocantinzão, jazim tô de vorta com novas histórias pra contar pro meu povo”...
Quando embarcamos as motos ainda em Belém, ficamos conhecendo um Polonês que embarcava seu carro, um Oldsmobile, e ficamos sabendo que já havia feito sete voltas ao mundo, algumas de carro, outras de moto, de barco, avião, trem e outra a bordo de um Fusquinha (Volkswagen Caddy). Com 63 anos de idade, nascido em Varsóvia, capital da Polônia, Andrzej é jornalista e engenheiro mecânico. Nessa oitava aventura ele partiu do Alasca (EUA) em 05 de março para realizar o contorno das Américas, indo da costa do Oceano Pacífico e voltando pela borda do Atlântico. Fluente em quatro línguas (polonês, inglês, espanhol e russo), o que o ajudou a conhecer diferentes lugares e culturas. Já visitou 144 países e passou 11 anos de sua vida viajando. Os registros dos desafios enfrentados estão expostos no YouTube.
Aqui no Catamarã Rondônia, a rotina dos cinco dias vai sendo quebrada, para quem vai de Belém a Manaus, pelo som constante dos motores que a gente assimila e até assusta, acorda quando ele diminui por algum motivo. Também pela animação renovada dos passageiros que embarcam e desembarcam nesse percurso, amigos novos e pra sempre sumidos, cujos nomes não se fazem muito importantes, mas sim o contato e a companhia nesses cinco dias a bordo e sobre as águas do Delta do Amazonas.
Vamos nos conhecendo e nos relacionando com todos os tipos de gente, do mais simples ribeirinho aos estrangeiros, na maioria intrusos e arrogantes. Ao perceber tal fato, tratei de pegar minha viola logo que escureceu e sentar em um cantinho no terceiro andar do Catamarã onde, sem cobertura, o céu se fazia iluminado com uma infinidade de constelações, lua cheia e estrelas cadentes. Um céu quase tão lindo quanto o das noites de julho nas praias do meu Tocantins.
Sairemos da Ilha de Parintins e devemos amanhecer em Manaus, onde recomeça nossa andança de moto rumo ao nosso destino programado. Vamos aproveitar para trocar o óleo da minha moto, verificar as necessidades de visto e documentação das motos pra sair do Brasil e adentrar a Venezuela e o restante das Américas Central e do Norte.
Estamos prevendo pegar uma estrada ruim, segundo informações de motociclistas e passar por região indígena e matas virgens lá pra bandas de Boa Vista, em Roraima.
Despeço-me do Catamarã Rondônia contando um alerta feito por Hans a mim com seu sotaque “portunhol”, quando usou a descarga do banheiro do nosso camarote pela primeira vez: “Diomar, mucho cuidado com la descarga de banheiro. És mui forte! Acionei sin saber e fue mierda pra todo lado”...
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