Vale comentar as minhas emoções desse primeiro dia de viagem, sempre comparando com minha primeira viagem. Antes tudo era uma grande novidade e eu não tinha nenhuma experiência de viagens longas, muito menos de moto. Nem imaginava o que iria encontrar pela frente! Meus sentimentos eram de expectativas e esperanças totalmente diferentes de agora, quando já se passaram quase 10 anos.
A oportunidade dessas viagens fez com que muitas coisas me transformassem, muitas concepções de vida e valores mudaram pra mim. Agora tenho mais onde me basear para saber aproveitar mais as lições da mestra “estrada do mundo e da vida”. Tenho agora mais condições de tirar proveito do contato com as pessoas que irei encontrando pelo caminho, sabendo que certamente nunca mais verei a maioria delas de novo, as atitudes que devo tomar e as que não devo com a estrada, com as fronteiras, com as motos e principalmente com meu parceiro Hans. Até porque acredito que uma convivência tão intensa de aproximadamente 3 meses deve ser bem cuidada para que tenhamos um convívio saudável e de companheirismo.
Primeiro devo contar da diferença de emoção da primeira e da segunda viagem. Na primeira fui invadido por um misto de medo e expectativas que me fizeram derramar algumas lágrimas por dentro da redoma que seria minha casa na maior parte do tempo desses próximos meses - meu capacete. E na clausura desses momentos, preso em mim mesmo, eu refletia muito transformando meu auto convívio numa rotina pessoal e intransferível, me forçando a entrar em contato com meus pensamentos, angústias, alegrias... enfim conviver direto e de frente com meus anjos e demônios adquiridos e herdados nesses 36 anos de muita e intensa vida.
Nessa segunda partida não senti mais medo ou tinha esperanças ilusórias, mas outros sentimentos como solidão, saudade, mágoa e decepção que mais pra frente irei contando suas nascentes e seus motivos.
Quando atravessamos a balsa, na saída do Tocantins, percebi uma certa influência que exercemos na cabeça das pessoas que ficam espantadas e surpresas com nossa história e, ao mesmo tempo, também desperta neles uma reflexão sobre suas vidas. Observam nosso exemplo de liberdade, o compromisso somente com a estrada, com o mundo a ser passado sob nossas rodas, como se nos vingássemos da rotina imposta pelo dia a dia, como acontece na vida da maioria. Desta forma, vamos causando uma certa “inveja boa” e mostrando a todos, de alguma forma, que se pode viver sem tantas correntes que impomos a nós mesmo, sem se deixar escravizar tanto pela roda-viva da trilogia pobre de somente “nascer – viver – morrer”.
Quando atravessamos a balsa, na saída do Tocantins, percebi uma certa influência que exercemos na cabeça das pessoas que ficam espantadas e surpresas com nossa história e, ao mesmo tempo, também desperta neles uma reflexão sobre suas vidas. Observam nosso exemplo de liberdade, o compromisso somente com a estrada, com o mundo a ser passado sob nossas rodas, como se nos vingássemos da rotina imposta pelo dia a dia, como acontece na vida da maioria. Desta forma, vamos causando uma certa “inveja boa” e mostrando a todos, de alguma forma, que se pode viver sem tantas correntes que impomos a nós mesmo, sem se deixar escravizar tanto pela roda-viva da trilogia pobre de somente “nascer – viver – morrer”.
Alguns podem até pensar em um tom crítico, mesmo que não seja um sentimento maldoso, que pra quem tem dinheiro isso é fácil, pois largar a família, filhos, trabalho e parar a “vida rotineira” para andar meses pelo mundo livres, leves e soltos não é permitido a qualquer um. De qualquer forma causamos, por alguns momentos que seja, essa mexida na cabeça deles. Sentimos que, pelo menos, algum desprendimento eles buscam em si próprios nas condições de cada um ao ver que enquanto um senhor de 85 anos está rodando o mundo de moto.
A grande maioria das pessoas, sejam jovens ou de mais idade, estão na cama sofrendo os males de se deixarem envelhecer, se entregando ao derrotismo, à rotina destruidora de emoções e sonhos e a vida acaba ficando limitada quando nos entregamos ao sedentarismo, à rotina, às escolhas erradas como relacionamentos, profissão, trabalhos.
Lembro-me, na primeira viagem, quando passamos pela cidade de Porangatu em Goiás, se aproximou de nós um senhor que, ao saber de nossa aventura e vendo o exemplo do Hans fez o seguinte comentário: “esse gringo com 80 anos roda o mundo de moto e eu com 60 só sei ficar reclamando de dores e peidando em frente a TV”. Risos.
Então, fico contente por me sentir um “anarquista”, que bagunça um pouco essa forma de pensar. Essa balbúrdia mental que provocamos na mente das pessoas, por si só, já se torna uma espécie de “missão”. Aprendi com a experiência que nada que fazemos tem muito sentido se não procurarmos dar uma “razão universal”. Essa semeadura de exemplificação de otimismo, coragem e liberdade, mesmo que muito pequena, acaba tendo alguma utilidade e colaboração. Estamos dando vida ao nosso planeta, melhorando-o com energia positiva e renovadora, gerando alguma motivação.
Existem ditos populares que são verdadeiras lições. Não sabemos de onde vieram, mas estão sempre em nossos lábios e mente, passados de pai pra filho. Tem um que diz: “acredite em seus sonhos, não desista nem se entregue e lute por eles que a ENERGIA DO MUNDO CONSPIRA A SEU FAVOR”. Sábias palavras!
Apesar de já ter feito a minha primeira volta as Américas, sou ainda um estranho, um mero iniciante em relação aos outros que já pertencem a esse universo dos motociclistas e levam esse estilo de vida. Vou conhecendo viajantes que tem centenas de quilômetros rodados e que sabem tudo de moto, inclusive desmontam e montam seus equipamentos com domínio total sobre as máquinas entendendo todo funcionamento e mecanismo, todos os modelos, tipos e preços de motos, as qualidades, defeitos e especificações, condições e peculiaridades das estradas por todo o planeta.
Mesmo já inserido nessa tribo, me reconheço ainda primário nesse mundo sobre duas rodas, mas noto e confirmo que essas oportunidades são para pessoas, na grande maioria homens, com mais de 50 anos que já se estabilizaram na vida em profissão, família, têm seus filhos já encaminhados e, principalmente, com esposas compreensivas, liberais e muito solitárias.
Assim, reafirmo em meus pensamentos a grande necessidade constante e diária que sinto de agradecer a vida e, principalmente ao Hans, por poder estar recebendo esse verdadeiro presente por ser novo nesse meio, sem dinheiro pra tais gastos (lembrando que meu bom e generoso irmão Hans que financia toda parte de combustível, alimentação e hospedagem), e já poder estar passando por essas experiências.
Então me lembro de meus 3 irmãos, casados, com filhos e responsabilidades, tendo uma vida que não permite essa liberdade “pseudo-egoísta”, pois agora escolheram viver em função de suas famílias, sem esquecerem de si próprios.
Então me lembro de meus 3 irmãos, casados, com filhos e responsabilidades, tendo uma vida que não permite essa liberdade “pseudo-egoísta”, pois agora escolheram viver em função de suas famílias, sem esquecerem de si próprios.
Noto os velhos e experientes aventureiros que, ao me observarem, percebem que, como eles, estou descobrindo a maravilha desse estilo de vida, com a vantagem de ser livre, com a vantagem de estar ainda novo para suportar as adversidades das viagens, tendo saúde e energia para aproveitar as oportunidades e, de quebra, ser um violeiro comunicativo. Desta forma, vou deixando minha marca de alegria e transmitindo emoções através do meu canto às pessoas que vou encontrando pelos cantos do mundo.
Sinto ainda uma grande necessidade de encontrar alguma forma de retribuir ao meu parceiro Hans. No momento, o que tenho feito é tentar ser um companheiro agradável e prestativo de viagem. Tento ainda retribuir à vida, tentando espalhar por onde passo simpatia, atenção a todos, carinho e respeito, desde os mais ricos e bem sucedidos aos mais pobres e humildes, todos curiosos em geral. "Gracias a la vida que me ha dado tanto..."
Por essas estradas que tenho passado, vou conhecendo nos “causos” contados pelos Motociclistas antigos, os quais se reúnem sempre para trocarem suas experiências, as histórias de outros jovens ou mais idosos que se transformam em criatividade e disposição pra fazerem essas aventuras em condições mais simples como acampamentos, dormindo em margens de estradas ou albergues.
Entre tantos casos, houve também o de um músico que, a cada cidade que parava, tocava sua viola esperando contribuições. Quando notava que já tinha o suficiente para a gasolina e alimentação, passava adiante para nova cidade.
Esses sim, são os verdadeiros aventureiros que muito admiro.

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