Escrevendo da Costa Rica


Estamos na casa de Patrícia, Rodolfo e Manuelito, filha adotiva de Hans e do quarto que me reservaram escuto uma chuva leve cair lá fora e apesar de um clima muito agradável e estar em uma casa muito bonita e confortável fica uma sensação de angustia com a chuva, pois na vida de motociclista, chuva representa perigo, atraso e tensão.

Precisamos voltar à Venezuela ainda na cidade de Puerto Camarebo, pois estou atrasado com relação aos relatos, por não ter tempo de escrever e nossa rotina é bem pesada: sempre acordando as 05h00min da madrugada e andando nossas 8 a 10 horas por dia, parando apenas pra abastecer a cada 200 km e comer algo, o que tiver nas paradas e às vezes deixando pra comer só à noite, nessa brincadeira, já emagreci 2 quilos.

Faz-se necessário contar a vocês, principalmente aos amigos motociclistas, que tenho aprendido que: apesar da rotina tentar nos trazer sentimentos de preguiça, cansaço e desanimo, assim como na vida, depende somente de nós mesmos, saber conduzir e encarar essa rotina, que só é “rotina” se deixarmos morrer e ser conduzidos por esses sentimentos negativos, derrotistas e alienadores.

Cada vez que pegamos uma estrada, seja a “estrada da vida”, seja uma tarefa, um proposito, um relacionamento ou uma viagem como esta, o desfrute, os aprendizados e o prazer de viver tal experiência esta diretamente relacionada à forma como se encara essa; “estrada”, se você já inicia a caminhada a cada dia de cabeça baixa, triste, se deixando dominar por desilusões e cansaço, e ainda ficar olhando para baixo, para o asfalto, às vezes com medo do caminho, medo dos perigos, medo do que vem pela frente, vamos perdendo assim o que há de melhor e a grande oportunidade de “Viver” as maravilhas que cada caminhada nos presenteia, fechamos os olhos no escuro frio e duro do asfalto das desilusões e não enxergamos a intensidade dos verdes das matas e paisagens que passam ao nosso redor, vamos perdendo assim a vida acontecendo ao nosso redor por perder também a sintonia e a “atração mágica” que essa “vida passante” apresenta em um show de cores, luzes, sabores e cheiros, vamos perdendo o amor das pessoas sendo expressados em acenos, sorrisos e perdendo também, essa maravilhosa experiência que é a dadiva da vida seja ela onde e como for.

Tenho visto pessoas vivendo em casas sobre palafitas, em desertos, encostas de montanhas em climas frios, inóspitos, em casebres pequenos na beira de rios sem estruturas básicas, distante de tudo e de todos e com um sorriso estampado na face, acolhedores e simpáticos sempre nos acenado e passando-nos sentimentos de amor fraterno e esperança e tentando nos dizer por trás desse sorriso e da “suposta e triste vida pobre”, algo como; “não se preocupe comigo, eu sou feliz e você esta sendo?”...

Em um hotel nessa cidade ainda na Venezuela, acordei com uma serenata matinal de pássaros conhecidos como a rolinha fogo-apagou, galinhos com seus cantos agudos e distantes e não pude deixar de sentir certa sintonia e prazer em saber que o mundo é apenas um só, e portanto a “Nossa Casa”, não importa onde estivermos, o mundo é nosso, “o mundo somos nos”...”Salve, salve, nosso planeta terra, tão pequeno e sofrido e apesar de maltratado por nos, seus inquilinos ainda tenta sobreviver pra continuar nos servindo de casa”...

Movido por esses cantos familiares dos pássaros do nosso mundo, pegamos estrada deixando pra trás não só mais uma cidade do estado Venezuelano chamado “Falcon”, mas também essa cidadezinha onde eu não diria que o “Judas perdeu as botas”, pois essa ação foi praticada por mim que deixei no estacionamento do nosso quarto (habitacion), meu par de botas, que estraguei de tanto tomar chuva e vento, feitos a mão pelo senhor Augusto do bairro de Taquaralto na cidade de Palmas em Tocantins uma de minhas moradas nesse mundão de meu Deus.

Repasso aqui, o que meu ídolo maior, Ariano Suassuna, me falou em uma entrevista que me concedeu para o Programa Raízes em 2010 quando lhe perguntei de onde ele era e me respondeu; “minha casa é onde me dão trabalho”...

De botas novas compradas a 600 mil pesos (aproximadamente 120 reais), com bandeirinha da Venezuela estampada. Seguimos adiante, ate chegar à Caracas e sem muita novidade como é típico das capitais e cidades grandes, onde a frieza das ruas conturbadas e transito violento, comprova que: quem viaja de avião e acha que em aeroportos insípidos e tão iguais esta conhecendo culturas novas, estão assim, muito iludidos pelo materialismo imposto por consumismo monetário e enganador.

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