Enquanto Hans foi atrás de combustível, conheci o Sr. Raimundo, outro brasileiro vindo do Ceará e que se firmou naquela região na pontinha superior do mapa do Brasil. Vivia ali no colo de uma serra de constituição rochosa, alta, imponente e protetora dos ranchinhos, conhecida como Serra dos Macacos.
Como aprendi numa canção de Luís Gonzaga, no sertão, para se aproximar de um ranchinho, além de observar se tem cachorro “valente”, deve-se gritar o prefixo que abre portas e corações. Então: enchi o peito de ar e soltei:
- Oh, de casa! Louvado seja nosso senhor Jesus Cristo.
De pronto saiu um velhinho que era só orelha e chapéu que respondeu:
- Vamos chegando, sinhô!
Já foi me mandando sentar e, depois de mais de uma hora de papo, já estávamos tomando cafezinho, fumando um cigarro de fumo enrolado em papel, daqueles brabos que me fez soluçar, tossir e assim descobri que se tratava do Seu Raimundo, conhecido curandeiro da região, cujos indígenas, tanto do Brasil quanto da Venezuela, respeitavam e procuravam seus préstimos sempre que eram maltratados ou explorados pela medicina convencional.
Seu Raimundo já tinha sido procurado por gente “rica e de posses”, como contava ele num papo animado, todo orgulhoso por já ter ido até Caracas dar palestras e treinar outros interessados na arte popular de curar com rezas e raízes, com aquelas garrafadas conhecidas do sertão e, principalmente, por nunca ter cobrado nada por seus auxílios. Deixava as gratificações por conta dos pacientes e familiares que julgassem que ele fosse merecedor. E recebia roupas, comida e até dinheiro, é claro.
Aproveitando essa riqueza de um personagem tão característico, filmei ótimos depoimentos, versos improvisados que o ouvia cantar. Observei o atendimento que ele fez a um nativo com cara de índio que caminhava sobre os calcanhares sem a parte da frente dos pés, por ter perdido quando criança no fogo.
Ajudei Seu Raimundo a comprar peixe de um caminhão que passou anunciando em um alto falante e o comemos juntos. Toquei algumas canções pra ele na minha viola e depois de mais de três horas de troca de histórias, avistamos a Gold Wing chegando com meu parceiro, cansado de tantas dificuldades.
Despedimos de Sr. Raimundo com novas lições, deixando saudade e levando um gosto amargo de gasolina na boca que o “corguinho” do fundo da casa dele não foi suficiente pra lavar.
Que aventura linda, hein??? Obrigada por dividir com a gente. Bjo grande.
ResponderExcluirDéa (mãe do Pedrinho)
Olhando essa foto,deu mais saudades ainda do teu programa.
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